'Não vai haver corte de bolsa da Fapesp', diz Tarcísio após mudanças em regras gerarem críticas de pesquisadores
28/08/2026
(Foto: Reprodução) Tarcísio nega cortes na Fapesp após mudanças em regras de bolsas
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), negou nesta sexta-feira (28) que haverá cortes nas bolsas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
A declaração ocorre em meio a críticas da comunidade acadêmica sobre as novas regras da Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior (Bepe), que entram em vigor em 1º de setembro de 2026. A principal mudança é o fim do benefício para estudantes de iniciação científica e mestrado. Leia mais abaixo.
A Bepe permite que estudantes e pesquisadores façam pesquisas fora do Brasil. Para ter direito, o candidato já precisa receber uma bolsa da Fapesp no país. Além disso, o trabalho no exterior deve ter ligação direta com o projeto nacional.
"Primeiro, não vai haver corte nenhum de bolsa da Fapesp. Temos garantia dos repasses financeiros, um valor vinculado, atrelado à nossa receita, e isso vai ser mantido. A gente garante que as bolsas vão ser mantidas na sua integralidade", disse Tarcísio, durante visita a uma barragem em Amparo.
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Questionado sobre o tema em coletiva em Itaquaquecetuba (SP), Tarcísio afirmou que não tem gerência sobre a decisão de mexer nas bolsas e disse que a Fapesp irá rever a decisão.
"O que a gente fez quando ficou sabendo, entramos em contato com a Fapesp: 'Olha isso não faz sentido, vocês estão com bastante dinheiro em caixa, estão com os repasses integrais, está tudo funcionando direitinho, por que fazer esse movimento?' E a Fapesp vai rever", disse.
Em comunicado divulgado no dia 1º de setembro, o Conselho Técnico-Administrativo da Fapesp disse que as mudanças na Bepe tiveram como objetivo "preservar, tecnicamente, o equilíbrio entre dispêndios com bolsas e auxílios", e reforçou que "não procedem as afirmações de que houve corte de bolsas ou corte orçamentário". Leia o texto na íntegra abaixo.
O que muda com as novas regras?
➡️ Quem pode solicitar
Antes: bolsistas de iniciação científica, mestrado, doutorado direto, doutorado e pós-doutorado.
Agora: apenas bolsistas de doutorado direto, doutorado e pós-doutorado.
➡️ Duração do estágio
Antes: variava conforme a modalidade e podia chegar a 12 meses.
Agora: a solicitação inicial deve ser de 6 meses.
Em situações excepcionais, a Fapesp poderá autorizar mais 6 meses de prorrogação, mediante justificativa.
➡️ Tempo mínimo no Brasil após a BEPE
Antes: 12 meses para doutorado direto e doutorado e 8 meses para pós-doutorado.
Agora: o prazo passa a ser de 6 meses para todas as modalidades.
➡️ Prazo para começar o estágio
Antes: a BEPE precisava começar pelo menos 12 meses antes do fim da bolsa no país, no caso de doutorado direto e doutorado, e 8 meses antes, no pós-doutorado.
Agora: o estágio deve começar pelo menos 6 meses antes do término da bolsa no Brasil, em todas as modalidades.
➡️ Pagamento de taxas de visto
Antes: não havia previsão específica para esse tipo de despesa.
Agora: taxas de entrevista e emissão do visto poderão ser pagas com recursos da Reserva Técnica da bolsa no país.
➡️ Análise das propostas
Antes: a Fapesp informava prazo médio de análise de 75 dias.
Agora: haverá uma etapa formal de habilitação, com conferência de documentos e requisitos antes da análise científica.
Tarcísio nega cortes na Fapesp após mudanças em regras de bolsas no exterior
Reprodução/EPTV
Adunesp cobrou explicações
Em texto publicado em 27 de agosto, a Associação de Docentes da Unesp (Adunesp) manifestou "preocupação" com as mudanças. A entidade afirmou que, até agora, "não foram apresentadas publicamente, de forma detalhada, as razões técnicas para as mudanças".
Para a Adunesp, esse esclarecimento é necessário para que estudantes, pesquisadores e universidades entendam os critérios adotados e possam avaliar os efeitos sobre a formação científica e a internacionalização da pesquisa.
"Para estudantes em início de formação, as modalidades BEPE de IC e Mestrado constituíam uma das poucas oportunidades de financiamento para experiências internacionais de pesquisa, com duração de até quatro e seis meses, respectivamente", defendeu.
O que diz a Fapesp
"A formação de recursos humanos qualificados é uma das prioridades máximas da FAPESP. Nos últimos dez anos (2016-2025), a Fundação concedeu mais de 78,5 mil bolsas de apoio à pesquisa em todos os níveis de formação acadêmica, da graduação ao pós-doutoramento, no Brasil e no exterior. Atualmente, em 2026, mais de 13 mil estudantes e jovens pesquisadores contam com apoio financeiro da FAPESP para viabilizar sua formação na carreira científica. Complementariamente a isso, a Fundação lançou em junho deste ano uma nova categoria de bolsa, destinada aos alunos das Faculdades de Tecnologia (Fatecs) do Estado de São Paulo, em parceria com o Centro Paula Souza.
Os valores das bolsas FAPESP são significativamente maiores do que os oferecidos por outras agências de fomento, federais e estaduais, tornando-as extremamente competitivas e concorridas. Considerando todas as modalidades, a FAPESP investiu mais de R$ 1,1 bilhão em bolsas em 2025. Esses investimentos só são possíveis graças à estabilidade e previsibilidade dos repasses do Tesouro para o orçamento da Fundação, que aumentou 64% entre 2020 e 2025.
A FAPESP monitora regularmente o uso e a destinação dos recursos públicos que lhe são confiados, com a missão de fomentar o desenvolvimento científico e tecnológico do Estado de São Paulo. Dentro desse processo, foi observado um aumento expressivo do valor despendido em bolsas pela FAPESP nos últimos dois anos, a ponto de as despesas com bolsas passarem a representar 58% do orçamento da Fundação em junho deste ano, comparado a uma média histórica de 35%. Fazendo uma projeção para os próximos anos, esse crescimento poderia colocar em risco a saúde orçamentária da Fundação e limitar sua capacidade de continuar apoiando projetos ambiciosos de pesquisa científica e tecnológica.
Entre 2023 e 2025, por exemplo, o número de bolsas contratadas pela FAPESP aumentou 73% (de 7.610 para 13.180), enquanto o número de auxílios contratados para apoiar projetos de pesquisa aumentou apenas 3,7% (de 2.656 para 2.754). No mesmo período, o número contratado de bolsas no exterior subiu 52% (de 1.242 para 1.889), sendo que a maior parte dessas bolsas é da categoria BEPE.
Esse aumento recente na demanda decorre principalmente de dois fatores: os valores altamente competitivos das bolsas oferecidas pela Fundação, concomitantemente a uma redução na participação das agências federais na concessão de bolsas destinadas ao Estado de São Paulo. Em apenas dois anos, por exemplo, a participação paulista nas bolsas de doutorado da CAPES encolheu cerca de 7%.
Diante desse quadro, o Conselho Superior da FAPESP determinou que o Conselho Técnico-Administrativo (CTA) da Fundação adotasse medidas para preservar, tecnicamente, o equilíbrio entre dispêndios com bolsas e auxílios. Uma das medidas adotadas nesse contexto, anunciada em 26 de agosto, foi a mudança nas regras para concessão de Bolsas Estágio de Pesquisa no Exterior (BEPE), para que estudantes e pesquisadores já contemplados com bolsa da FAPESP realizem parte de seus trabalhos fora do país.
Pelas regras que passaram a vigorar em 1º de setembro de 2026, apenas estudantes que já possuem Bolsa de Doutorado Direto, Doutorado e Pós-Doutorado poderão pleitear bolsas BEPE por fluxo contínuo. A duração dessas bolsas BEPE foi alterada de 12 meses para 6 meses, prorrogáveis por mais 6 meses, mediante solicitação do bolsista e análise de mérito da FAPESP. Alunos de Iniciação Científica (graduação) e Mestrado com bolsa aprovada até 31 de agosto de 2026 poderão pleitear bolsas BEPE por meio de uma chamada específica a ser anunciada no fim de setembro. No caso de bolsas de Iniciação Científica e Mestrado concedidas a partir de 1º de setembro de 2026, será aberta uma nova chamada BEPE no primeiro semestre de 2027.
Importante ressaltar que não houve corte no número de bolsas BEPE, mas alterações nos critérios de elegibilidade e na duração das mesmas. A mudança tem como base um entendimento de que esse apoio à realização de estágios no exterior deve privilegiar estudantes e jovens pesquisadores nos estágios mais avançados de sua formação acadêmica e científica.
Destaque-se que não foram realizadas mudanças em nenhuma outra categoria de bolsa da FAPESP. Assim, não procedem as afirmações de que houve corte de bolsas ou corte orçamentário no âmbito da Fundação. Foram realizados ajustes pontuais, tecnicamente necessários, para preservar simultaneamente a excelência das bolsas, o financiamento da pesquisa e a capacidade de investimento de longo prazo da Fundação.
O CTA continuará acompanhando os efeitos dessas mudanças, fazendo correções de rotas consoante seja necessário, sempre ouvindo o Conselho Superior, visando compatibilizar os dispêndios com bolsas com o conjunto de encargos da Fundação para manter o equilíbrio das atividades de ciência, tecnologia e inovação financiadas".
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